Laços entre ciência e sociedade são colocados à prova

Reportagem especial da 45a edição do Senso, com material extra em vídeo e áudio

Por Carolina Fernandes, Melissa Ribeiro e Zina Crepaldi

Enquanto assiste a novela das nove, sentada no sofá da sala, é de gomo em gomo que Maria Helena Pereira, vai se deliciando e se lembrando dos tempos de infância no oeste mineiro. A dona de casa de 61 anos, que nasceu na cidade de Boa Esperança, recorda-se de saborear o marolo, ou araticum, com seus pais e os 11 irmãos, sempre próximo à quaresma, embaixo da árvore que pode chegar a sete metros de altura. O marolo é um fruto típico da região do cerrado, da família da fruta-do-conde. Além de ser parte da experiência de vida de Pereira, ele possui propriedades que estão em estudo por pesquisadores do Instituto de Química da UFU. Eles investigam seus benefícios para o tratamento de Alzheimer. Quando informada sobre esta pesquisa, Pereira ficou surpresa em saber e demonstrou preocupações. “Eu não sabia não, mas como eles vão fazer? Marolo não dá o ano todo”. 

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Além de comer os gomos do fruto, que pode chegar a dois quilos, ela conta que conhece outras formas de consumi-lo: “Dá pra fazer licor, doce, geleia. É só pesquisar na internet”, indica. A relação de Pereira com o marolo parece distante dos laboratórios de pesquisa da universidade, mas, ainda assim, ela se anima com os rumos das investigações científicas sobre o amado fruto. Ao ser perguntada sobre os possíveis resultados positivos da pesquisa, ela diz que acredita no trabalho dos cientistas. “Acho que sim, se eles estão falando”, comenta. 

O fato da dona de casa desconhecer as propriedades investigadas pelos pesquisadores, ou mesmo a pesquisa em questão, não é um caso incomum. Entre julho e agosto de 2018, a ONG inglesa Wellcome Trust realizou uma pesquisa com 140 mil pessoas de 144 países – entre elas, mil brasileiros – para entender a relação da sociedade com os conhecimentos científicos. Em todo o mundo 44% dos entrevistados dizem não saber muito sobre ciência. Dos brasileiros entrevistados, a maioria (67%) afirmou saber pouco sobre ciência. Apesar disso, 69% dizem que gostariam de conhecer mais sobre o campo científico, mas 80% afirmaram não ter buscado por nenhuma informação científica no mês anterior. Ainda assim, 64% disseram confiar na ciência e 58% que todos os brasileiros se beneficiam da ciência. 

Pelos números da pesquisa, a confiança na ciência não coincide, necessariamente, com contato com ela, e que é preciso tentar entender o motivo desses resultados, assim como pensar em perspectivas em que a confiança no conhecimento científico se fortaleça e se amplie. Para isso, é importante compreender a ligação entre ciência e sociedade.

Por um lado, a aproximação da população com a ciência significa compartilhar as contribuições dos especialistas e de demonstrar a relevância de suas pesquisas. Por outro, ela é um elo importante para a manutenção da própria ciência, que depende do reconhecimento e amparo da sociedade. No Brasil, essa situação é particularmente importante, já que a maior parte das pesquisas desenvolvidas no país vêm de instituições públicas, como as universidades e institutos federais. É a população, portanto, que financia a maior parcela do conhecimento científico nacional.É o caso da pesquisa sobre as possíveis propriedades do marolo para o tratamento do Alzheimer: ela é  orientada pelo professor Dr. Marcos Pivatto e desenvolvida por Marília Fontes Barbosa, doutoranda do Instituto de Química da na UFU. Sua contribuição se baseia num contexto de que, segundo o Ministério da Saúde, o Alzheimer acomete 11,5% da população idosa do país. Além disso, a Associação Brasileira de Alzheimer aponta que 1,2 milhão de brasileiros convivem com a doença.

Para o professor Pivatto, o estudo do fruto do cerrado busca aproximar o conhecimento popular e o conhecimento científico e esclarecer para sociedade sobre os benefícios da biodiversidade regional. 

Como reportado na edição 44 do Senso InComum, as agências de financiamento às pesquisas científicas no Brasil sofrem com cortes e congelamentos de recursos. Além disso, foram anunciados este ano cortes de 30% sobre despesas não obrigatórias das universidades públicas e institutos federais pelo Ministério da Educação (MEC). 

O professor Pivatto, revela preocupação com este cenário: “Estamos perdendo pesquisas que poderiam ser desenvolvidas, consequentemente, gerando conhecimentos. Além de tudo isso, se perdem sonhos de jovens que dependem do auxílio de uma bolsa para cursarem uma pós-graduação”. Ele completa: “Tenho alunos que já me informaram que, se não conseguirem bolsa, terão que abandonar suas pesquisas que já estão em andamento. É muito triste ver jovens tão brilhantes, com futuros tão promissores, terem que interromper seus sonhos”. 

 O diretor de pesquisa da UFU, professor Kleber Del Claro afirma que o momento é grave. “A gente tem um monte de responsabilidades que dependem do apoio financeiro do Governo Federal. Vamos ficando travados. Por exemplo, não conseguimos concluir alguns prédios e apoiar mais bolsistas”. Del Claro explica que o corte de recursos na UFU afetará especialmente os programas de pós-graduação, mas o corte realizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) terá impacto direto no incentivo à pesquisa feita por graduandos. “Os cortes da FAPEMIG prejudicaram 190 alunos de graduação de forma imediata. Isso é muito triste e até revoltante”, lamenta. 

Ainda seguro Del Claro, o movimento na contramão da geração de novos conhecimentos científicos impactará a população a médio e longo prazo. “Novos medicamentos, técnicas e aparelhos deixarão de ser desenvolvidos e nossa dependência de tecnologia externa aumentará. Estaremos à mercê do que os países mais avançados decidirem, ou não, compartilhar ou cobrar muito caro por isso”, analisa.

Diante dessa situação, a jornalista e editora da Divisão de Ciência da Diretoria de Comunicação da UFU, Diélen Borges, considera essencial fortalecer o debate público sobre a ciência. “Precisamos trazer a sociedade para a discussão, porque não é um assunto só de cientistas ou só para jornalistas. Temos que pensar coletivamente em quais são os impactos dos conhecimentos científicos, quais são os interesses públicos para as ciências que são desenvolvidas nas universidades”, afirma ela, que é também pesquisadora sobre divulgação científica, jornalismo literário e questões de gênero.

Divulgação científica esteve em foco na UFU durante o II Comunica Ciência, encontro de jornalistas e pesquisadores que discutem o tema. O evento contou com a participação da cientista e professora do Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Zélia Ludwig. Ela acredita que a divulgação científica pode contribuir para o debate sobre ciência na sociedade. Ludwig afirma que não há só um caminho para fazer com que a sociedade viva e entenda a ciência. “Existem muitas pesquisas sendo feitas, com contribuições para a sociedade que são imensuráveis. Vamos nos unir e sair da zona de conforto”, convida a pesquisadora que, em sua carreira, coleciona diversas iniciativas de divulgação científica.

Outro participante do Comunica Ciência, o jornalista de Ciência da Folha de S, Paulo Reinaldo Lopes considera que comunicar os conhecimentos científicos é essencial para que a sociedade defenda os centros destes estudos. “É uma questão de sobrevivência para a universidade pública. A falta de incentivo e de reconhecimento das ciências pode levar ao desmonte das universidades públicas no país”. O jornalista percebe ainda que, no cenário atual, há um forte movimento anticientificista, que está ligado ao conservadorismo político e cultural do Brasil: “Estamos numa situação política em que gente extremamente poderosa é profundamente anticiência, da raiz do cabelo à ponta do pé”.

O que há de comum nas percepções de pesquisadores, divulgadores e jornalistas é a necessidade de diminuir o distanciamento entre as vivências cotidianas – como o consumo do fruto marolo pela dona de casa Maria Helena Pereira – e os conhecimentos científicos produzidos pelas universidades. Zélia Ludwig reforça que essa aproximação também é possível se com a devida atenção para pessoas como Pereira: “É preciso ouvir pessoas mais velhas, elas possuem sabedoria na ancestralidade. Há ciência na produção do sabão, da geleia e do doce de compota por exemplo”. Este parece ser um dos caminhos para enfrentar as tentativas de deslegitimação dos conhecimentos científicos, que se concretizam por meio de cortes e bloqueios de recursos governamentais. De acordo com Reinaldo Lopes, é preciso dialogar com a sociedade. “A nossa atitude deve ser no sentido de compreender a realidade e conversar sobre ela”. Não é preciso ir longe para enxergar que os conhecimentos científicos permeiam a vida das pessoas, mesmo nos momentos simples, como degustar uma fruta do cerrado.

LINK para o podcast – Entrevista Melissa com Daniel Pompeu

Ouça a conversa com egresso do curso de Jornalismo da UFU, Daniel Pompeu, sobre as perspectivas do jornalismo científico.

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