Cultura brechozeira: história e cena

Conheça mais sobre os brechós, abordados em matéria da edição 45 do Senso InComum

Por Zilá Carvalho

A compra, venda e troca de artigos usados acontece no mundo há muito tempo, de diferentes maneiras. Nas épocas mais remotas, quando os grupos humanos começaram a se organizar em núcleos que evoluíram para aldeias, e depois, cidades, as relações comerciais aconteciam com objetos usados, enquanto não havia fetiche sobre os produtos novos. 

A palavra ‘brechó’ é uma típica adaptação brasileira. Aqui, é comum que a pronúncia seja diferente da grafia, e  e a oralidade assume a forma com que as palavras são usadas e se modificam. Com o termo brechó não poderia ser diferente. As histórias por aí costumam dizer que, no Rio de Janeiro do século dezenove, havia um mascate chamado Belchior, que vendia objetos e roupas usadas. Por isso, ‘casa de Belchior’ tornou-se denominação para lugares onde as coisas usadas ganhavam uma segunda chance de uso, sem ir para o lixo. A oralidade brasileira alterou aos poucos o nome Belchior, até que sua nova forma fosse brechó; esse  termo forte e divertido que caracteriza um tipo específico de comércio de roupas e objetos. 

Fato é que, na França, há um termo, marché aux puces,  que significa mercado de pulgas, e se refere a um tipo de comércio ao ar livre, em que era comum as tapeçarias e mobiliários à venda estarem infestados de pulgas. Naturalmente, não era muito apreciado pela burguesia, que se fragilizava com a realidade de bichinhos infestando as ruas. 

Em inglês, flea markets (literalmente “mercado de pulgas”, por causa da expressão francesa) e thrift shop referem-se aos brechós e bazares, e há relatos que contam que, nos Estados Unidos, desde 1873 já existia no Texas uma enorme feira e leilão ao ar livre, com troca e venda de objetos pessoais. A história aponta novas formas de comércio como saídas para as crises como no pós Primeira Guerra Mundial. Mas há também uma concepção antropológica que atribui a ideia de troca de artigos usados aos povos nativos do México e América Central, uma vez que os países pré-hispânicos tinham mercados estabelecidos com ramificações diversas.

No Brasil, somente em meados da década de 70 os brechós foram reconhecidos como um negócio de fato, e algumas personalidades contribuíram para que isso acontecesse, como a cantora Maysa. Depois de algumas viagens à Europa, ela trouxe para o país a ideia de comercializar objetos usados por ela e por amigos, e fundou, em 1972, seu brechó e antiquário chamado Malé de Lixo, em Copacabana, Rio de Janeiro.

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Lentamente, as reflexões sobre o propósito da moda, consumo, fast-fashion, condições de trabalho e custos de vestuário foram ocupando lugar no imaginário popular, enquanto os debates públicos sobre sustentabilidade e consumo consciente se espalharam por nosso território.

Brechó por brechozeiros

Regimando, Regis, Reginaldo. Um nome em cada canto de Uberlândia. Um nome espalhado pela cidade, da figura que adora se espalhar por aí. Mas gosta de ser conhecido por causa do seu brechó, o Brechó do Regis. 

Havia roupas por todos os lados  nas araras e nas prateleiras daquele pequeno cômodo, na esquina da Rua Xingu com a Coronel Antônio Alves, número 2410. Regis trabalha ouvindo um som bem alto enquanto perambula por sua loja, pisando o tapete marrom e tocando as roupas da arara da direita sempre que passa por ela.  Devidamente acomodados, Régis conta de quinze anos dedicados à alegria de se fazer o que gosta.A oportunidade de começar um brechó chegou para Regis antes mesmo que pensasse muito sobre isso. Uma amiga sugeriu comprar e receber doações de roupas para revendê-las mais caro, e ele começou seu empreendimento com seis peças. De lá pra cá, muita coisa mudou; Regis foi se relacionando com diferentes percepções das pessoas sobre moda e estilo, diferentes idades, públicos e ideias sobre brechó. Ele conta que, há 15 anos, quando começou sua loja, a maior parte de seu público era de mães chefes de família e pessoas que chegavam em Uberlândia vindas de outra cidade, procurando oportunidades de trabalho. Muitas vezes, as roupas do seu brechó eram para entrevistas de emprego.

Hoje, os visitantes e consumidores do brechó têm outra cara, e são, principalmente, jovens estudantes da UFU, que aparecem por lá para fazer um “garimpo”. Ele sabe que as meninas vendem as roupas que garimpam e comemora a sagacidade delas; além disso, diz perceber que há espaço para empreendimentos nessa área, principalmente por não precisarem se preocupar com o aluguel de espaço físico. Ele mesmo pensa em migrar para o Instagram, mas sem abrir mão do seu “público de porta”, as pessoas que ajudaram a fazer seu nome ao longo dos anos de loja. 

Na vida do Regis, uma coisa é certa: moda e estilo estão há muito tempo em seu radar. No próprio cotidiano, sempre houve espaço para explorar as possibilidades da moda que ele se orgulhe de ter construído para si um negócio que ele vê como ambiente para ajudar as pessoas e ocupar um espaço que muito lhe agrada.  

As diferentes percepções das pessoas sobre moda têm a ver com a experiência de um estilo próprio, sem apego a marcas ou idade da peça. Nas palavras deste entusiasta dos brechós, cada vez há menos espaço para achismos sem fundamento, e seu otimismo é resultado da disposição da sociedade em quebrar paradigmas, ousar viver outros modelos possíveis, de preferência os colaborativos. 

Régis tem uma ideia para trocar no vídeo a seguir:

https://www.youtube.com/watch?v=mLr9DxXf-6g&feature=youtu.be

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