Universitários resistem em cenário de cortes

Um panorama de atos pela Educação na UFU em 2019

Por Ana Eliza Barreiro

Os meses de maio e junho foram palco para a força do movimento estudantil contra os anúncios governamentais de uma redução de 30% no orçamento da educação superior. Viu-se também uma reação a ofensas aos alunos e docentes feitas por alguns políticos, inclusive o Presidente da República Jair Bolsonaro, que chamou universitários de “idiotas úteis”.

Em Uberlândia, uma agenda de atos de resistência levou milhares de pessoas de todas as categorias a gritar palavras de ordem contra retirada de direitos nos dias 09, 15 e 30 de maio e 14 de junho de 2019. O sol forte e o calor do asfalto não impediram que tantos percorressem a pé alguns quilômetros pela cidade, entoando a uma só voz que “educação não é mercadoria”. Entre bexigas coloridas, cartazes criativos e hinos de luta, jovens, adultos e até crianças marcharam entre as praças Clarimundo Carneiro, Ismene Mendes e o campus UFU – Santa Mônica, fazendo história em prol do ensino público de qualidade.

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Milhares de pessoas se reuniram em manifestações pela educação, em Uberlândia. Foto: Ana Eliza Barreiro

Para entender o que desencadeou esta explosão de atos pela educação em Uberlândia, no que diz respeito à Universidade federal, é preciso compreender o quadro financeiro da instituição e as ameaças que o bloqueio faz ao seu funcionamento.Este ano o orçamento da UFU é de R$1, 07 bilhões e, deste valor, R$924 milhões são destinados ao repasse obrigatório para salários dos trabalhadores ativos, aposentados e gastos previdenciários. O que, de fato, resta como recurso financeiro a ser administrado é 17,7% deste orçamento, o que significa R$147 milhões destinados para investimentos como obras e manutenção como limpeza, energia elétrica, material e segurança. O anúncio de contingenciamento em 30% feito pelo MEC representaria para a UFU menos R$42,7 milhões usados nesses recursos discricionários. Com o orçamento do ano já em curso no mês de maio, a instituição teria quatro meses para se adequar ao novo orçamento e reduzir despesas em 45% até o final do ano. De acordo com a nota oficial divulgada pela Administração Superior da UFU, este bloqueio compromete o desempenho da prática acadêmica, havendo ameaça de paralisação das atividades da universidade por falta de condições mínimas e de segurança nos campi.

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O bloqueio de verbas compromete o desempenho da prática acadêmica, havendo ameaça de paralisação das atividades da universidade. Foto: Ana Eliza Barreiro

 Para Benerval Pinheiro Santos, presidente da ADUFU, entidade representativa de professoras e professores da UFU, este bloqueio afetará toda a cidade: “A sociedade inteira perde com isto, pois R$42 milhões a menos para a UFU representa R$42 milhões à menos para a sociedade. Haverá menos investimentos em Uberlândia, e o comércio, serviços, todos os segmentos sociais sentirão o peso deste corte.”

Santos afirma que a redução de recursos é uma ação deliberada do governo para sucatear a educação superior pública. A seu ver, é papel da comunidade acadêmica participar de atos em prol de seus direitos, e as reivindicações sociais recentes revelam, mais do que a preocupação pontual com a continuidade do ano letivo, um receio com o futuro da nação. “Não adianta ficarmos dentro dos muros da universidade com pautas específicas e esquecermos as pautas sociais mais amplas. Por isto a ADUFU não se furta a atuar nestes movimentos, pois com um país falido também teremos uma universidade falida”, argumenta. 

Valentina Moretto Benatti, estudante de História na UFU e militante do movimento estudantil e do Levante Popular da Juventude, pondera que os atos proporcionaram uma mobilização grande na região, conseguindo ainda reunir 5 mil pessoas na última paralisação. “As manifestações estão conseguindo mobilizar o povo. Porque, embora as organizações sejam importantes, ainda mais essencial é a conscientização das pessoas, estudantes, trabalhadores, pequenos empresários, camponeses”, enfatiza. Presente na organização dos atos e também no Diretório Central dos Estudantes (DCE), Benatti afirma que apenas haverá resultado com a luta unida do povo. “Então vamos para as ruas enfrentar tudo isto, pois esta é a única perspectiva de mudanças. Se nem a possibilidade de mudança te move, que seja a vergonha de ficar parado neste cenário”, declara.

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O clima quente não impediu que tantos percorressem a pé alguns quilômetros pelo centro de Uberlândia, entoando a uma só voz que “educação não é mercadoria”. Foto: Ana Eliza Barreiro

Junto às manifestações, também houve um movimento de mostra científica em pontos centrais da cidade, organizados por alunos da universidade entre os dias 17 e 18 de maio. “A ideia era levar para rua o que a universidade produz de ciência e proporciona para a população, pois existe uma guerra contra o ensino”, relata Tatiane Marquini Ribeiro, uma das coordenadoras da iniciativa. Estudante do 7º período de Medicina Veterinária da UFU, ela está em sua terceira iniciação científica, que envolve análise de um composto cancerígeno na carne suína. Marquini é uma das pesquisadoras brasileiras que tem seu trabalho diretamente comprometido com os cortes na educação.

Com os bloqueios do MEC, há o risco do  desmonte das universidades públicas, impactando toda a produção científica brasileira. Como aponta o relatório de pesquisa no Brasil de 2011-2016 da Clarivate Analytics, essa produção é, em sua maior parte, realizada em institutos superiores públicos. A participação de Marquini no ato serve como um alerta para a população sobre o fim de pesquisas como a sua, que teve sua bolsa cortada este ano. “Quem vai pagar pelo trabalho seremos eu e a professora, que precisaremos rachar o valor. Então não é que estamos fazendo de graça. Já estamos pagando para fazer a pesquisa. Mas muitos nas ruas não sabiam que os cortes iriam nos afetar”, observa.

A luta pela educação segue firme enquanto estudantes prosseguem acreditando na ciência mesmo sem apoios. Benatti, que crê na emancipação popular pelo ensino, e seus aliados, conhecidos ou anônimos, continuam batalhando pelo direito da juventude realizar seus sonhos e construir um país mais justo no futuro. Mesmo em um contexto de crises e retrocessos, a presença da resistência se faz forte, como afirma a docente do Instituto de História da UFU e militante pela educação Jorgetânia S. Ferreira, “o papel da resistência é animar o povo para acreditar num mundo mais igualitário, a construir solidariedade. Se antes de nós, tantos resistiram e conquistaram direitos, nós também seguiremos”.

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As manifestações também uma reação a ofensas aos alunos e docentes feitas por alguns políticos, como o Presidente da República Jair Bolsonaro, que chamou universitários de “idiotas úteis”. Foto: Ana Eliza Barreiro

Após a onda de manifestações, houve resposta do Governo Federal : o MEC procurou desbloquear R$1,5 bilhão do setor, revendo o contingenciamento em R$5,8 bilhões e libertando a pasta de bloqueio adicional feito em remanejamento de maio.

Ainda assim, a conjuntura continua complicada e levará tempo até que verdadeiras mudanças ocorram. “É preciso ir acumulando forças para superar estas vitórias provisórias. Há uma acentuação muito dura da retirada de direitos, então vamos demorar um tempo para vencer esta batalha. Porém, cada ato que fazemos é um caldo de resistência para termos ganhos futuros”, explica Jorgetânia. Até o momento, a Administração Superior da UFU não fez novo informe oficial sobre a situação da universidade no segundo semestre do ano.

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Fotos: Ana Eliza Barreiro

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