Família Acolhedora ensina uma outra forma de amor ao próximo

O projeto tem como função o acolhimento familiar de crianças e adolescentes entre 0 e 18 anos

Ana Luíza Vargas

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A responsabilidade é fundamental para que a família cumpra seu papel, já que a chegada de uma criança demanda mudanças na rotina, como a necessidade de destinar um tempo às brincadeiras. Foto: Eduarda Yamaguchi

“Ele trouxe luz para a nossa casa”. É assim que começa a conversa com uma das mais de 30 famílias cadastradas no Projeto Família Acolhedora em Uberlândia. Esse programa é um serviço de acolhimento familiar para crianças e adolescentes que, afastados do convívio familiar por meio de medida protetiva, ao invés de irem para instituições de acolhimento, são destinados à casa de uma família que irá acolhê-la até sua situação na justiça ser resolvida.

Como uma política pública nacional prevista na Lei 12010/2009, esse serviço visa a proteção integral de crianças e adolescentes que estão impossibilitados do convívio com a família de origem. O professor do Direito da UFU Gustavo Boyadian aponta que no texto original do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, o artigo 32 já fazia uma previsão quanto à inclusão de criança e adolescente em programa de acolhimento familiar, tratando essa forma como preferencial ao acolhimento institucional. “Essa é uma medida excepcional e distinta da adoção, que é algo permanente”, explica.

Segundo dados do Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas, no Brasil existem mais de 47 mil crianças e adolescentes nessa situação, sendo mais de 5 mil dessas no estado de Minas Gerais, o segundo maior em número de acolhidos. De acordo com a coordenadora do serviço em Uberlândia, Karina Garcia, o tempo máximo estipulado para o acolhimento provisório é de um ano e meio e ela ainda apresenta estudos que comprovam que, na primeira infância, o desenvolvimento dessas crianças é melhor se estiverem em família ao invés das instituições de acolhimento.

Com a criação dessa nova forma de hospitalidade, que permite um cuidado individualizado da criança, Garcia declara que uma das perguntas mais frequentes é quanto à questão do apego que pode ser criado, mas ela frisa a necessidade de transpor a barreira do afeto pelo bem das crianças. “Ninguém deixa de amar um avô, uma avó, porque um dia eles vão morrer, porque vão partir ou podem mudar de cidade. Conversamos muito sobre isso no curso, a importância desse apego ser saudável entre as crianças e as famílias”, afirma a coordenadora que ainda explica a existência de um curso de formação com cinco encontros para as pessoas que desejam se cadastrar.

A ex-discente da UFU e hoje uma das psicólogas da unidade, Aline Sicari relata o quão é importante que as crianças e as famílias passem pelo acompanhamento psicossocial junto à equipe técnica de serviço. “Quando as crianças chegam aqui, não sabemos como serão seus destinos e, nesse momento, é feito um estudo psicossocial dos pais de origem para entender se eles vão resgatar essas crianças ou se, após passarem pelo serviço de acolhimento, elas serão encaminhadas para a adoção”, informa a psicóloga que terminou sua graduação em 2013 e está há dois meses na equipe.  

Pelo olhar do amor

Participar desse projeto é o caso da família da Gracileia Saraiva, 47, que há dois anos fez o curso, se cadastrou no serviço e atualmente cuida de uma criança de apenas dois anos. Casada há quase 30 anos e tendo dois filhos já maiores de idade, ela comenta que a vontade de ser uma Família Acolhedora veio do amor que a sua família tem por crianças e do vazio que sentia sem mais nenhuma em casa. “Quando a gente conheceu o projeto, achamos excelente, porque não é uma adoção, que é algo eterno e permanente, mas sim uma forma de sempre ter uma criança em casa”, conta a participante do programa, que explica também a mudança radical em sua rotina e a necessidade de ceder algumas atividades que gostava de fazer ao pegar essa responsabilidade.

foto familia acolhedora
A presença da família, segundo estudos mencionados pela coordenadora do projeto em Uberlândia, é importante para um melhor desenvolvimento da criança. Foto: Eduarda Yamaguchi

E esse amor por crianças sempre foi algo presente na família Saraiva. Um dos filhos de Gracileia, Renato Saraiva, 29, é pedagogo e atualmente cursa Letras: Língua Portuguesa com Domínio em Libras na UFU. Essa paixão por educar fez com que ele se aproximasse ainda mais do João* e o ensinasse a Língua Brasileira de Sinais. “Como estou nessa nova graduação e a Libras é muito presente, comecei a ensinar algumas coisas simples que o João* já consegue sinalizar. Isso é bonito, porque não é uma ação que ele repetiu na hora, é duradouro”, descreve o estudante da UFU, que finaliza dizendo que se tivesse que definir em uma palavra todo esse projeto seria “sensacional”.

*Nome fictício para preservar a identidade da criança

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