Reitor analisa trajetória da UFU desde a federalização

Das realizações aos desafios futuros, Valder Steffen comemora os 40 anos da universidade

Por: Rodolffo Garcia

Valder Steffen está no segundo ano de sua gestão como reitor, mas há 42 anos trabalha na universidade. Ele foi um dos primeiros docentes doutorados na época em que a UFU era uma pequena universidade de engenharia. Contou ao senso o que mudou com a federalização e o que se pode esperar do futuro.

Para Steffen a federalização trouxe mais responsabilidade na formação de cidadãos. Foto: Clarice Bertoni.
Para Steffen, a federalização trouxe mais responsabilidade na formação de cidadãos. Foto: Clarice Bertoni.

Quando o senhor ingressou na UFU como docente? Como foi a experiência?

Fui contratado em 1° de julho de 1976, naquela época era a Faculdade Federal de Engenharia, não a UFU. Nesse mesmo ano o Brasil havia assinado um acordo de cooperação com a França e eu havia terminado meu curso de graduação na UNICAMP e tinha concorrido a essa bolsa para a área específica de engenharia. Como quem fez o processo seletivo foi o consulado de São Paulo, ficou mais fácil pra mim. Já naquele tempo eu era aluno de Iniciação Científica e consegui ser aprovado.

Junto a tudo isso meus pais moravam em Uberlândia e tinham professores conhecidos de engenharia. Essas pessoas ficaram sabendo de minha aprovação já que naquela época não haviam doutorados nessa ciência, estava tudo apenas começando, então eles se propuseram me contratar, caso eu posteriormente, quando concluísse o doutorado, viesse para Uberlândia.

Foi um momento muito especial e diferente do que teríamos hoje e está justamente relacionado com as mudanças da universidade. Quando finalmente terminei meus estudos na França, no início de 1980, a UFU inteira tinha apenas cinco professores com doutorado, dos quais três estavam na engenharia mecânica, que era a minha área. Após esse momento tudo começou crescer rapidamente, o governo criou programas como o Programa Institucional de Capacitação de Docentes (PICD), então foi mudando o perfil da universidade.

O que mudou na UFU com a federalização?

Talvez a primeira grande diferença é que não havia pós-graduação e pesquisa. Inicialmente, era uma escola de engenharia e depois uma universidade voltada apenas para graduação. Outro aspecto ainda recente é que durante alguns anos a universidade estava muito voltada para ela mesma, a UFU situava-se só em Uberlândia. Com o Reuni (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), houve expansão. Mudamos o perfil da universidade ao nos tornarmos regionais.

A política de cotas também é algo extremamente significativo. A UFU é uma universidade pública e gratuita, então a população brasileira tem que se ver representada na instituição. A universidade hoje tem muito mais a cara do Brasil do que tinha no passado.

Quais os principais desafios enfrentados pela UFU?

Primeiro que ela não é apenas federal, ela é pública, gratuita, de qualidade, democrática, socialmente referenciada e laica. Então por trás de cada um desses adjetivos têm uma série de coisas. Acredito que sendo uma universidade federal nós também temos grandes responsabilidades. Não é apenas o privilégio da federalização. No formato atual a universidade tem uma satisfação enorme a dar ao país. Em termos de formação de recursos humanos e de cidadãos, de responsabilidade com a cidade, com a região, tudo isso pesa sobre os ombros das federais. As universidades privadas, embora possam ter algumas de nossas características, não tem esse tipo compromisso com o país.

Além disso, através dos vários programas de intercâmbio, a UFU se internacionalizou. Embora as engenharias tenham iniciado o processo de internacionalização bem cedo, já que temos documentos de tentativas de alguns convênios com o Canadá, que são antes de 1983, isso se espalhou com a federalização.

Desde que nós assumimos essa gestão, um dos maiores e mais recentes desafios da UFU foi resolver a ocupação do Glória. E isso já está encaminhado. Temos gasto um esforço grande para resolver, tanto em aspectos políticos como em termos jurídicos e administrativos. Não é só a regularização da área. Também tivemos que trabalhar para fazer isso de uma forma legal. A universidade tem grande responsabilidade social, não podendo ignorar as famílias que lá estavam, então a UFU buscou por uma solução pacífica, tendo em vista o caráter social do problema.

Além disso, temos um impasse com a empresa responsável pela realização das obras de expansão do Hospital de Clínicas. Ela se encontra em recuperação judicial [trata-se de um recurso jurídico sancionado empregado a fim de evitar a falência de uma instituição] e o foro é no Rio de Janeiro, o que dificulta tremendamente para nós. Estamos nos esforçando para tentar retomar a construção, seja com essa ou com outra empresa. O fato é que não pode deixar de ser resolvido.

Outro grande desafio que decorre pela falta de investimento é a finalização da infraestrutura de Patos de Minas e Pontal. Por estar mais avançado, focamos em finalizar o campus de Monte Carmelo que será concluído antes do início do próximo ano letivo. Já estamos finalizando a instalação do Restaurante Universitário e a falta de asfalto no acesso ao campus. Obviamente, existem outras demandas em Monte Carmelo e é normal e bom que haja, mas o básico está atendido. Diferentemente de Patos que não tem nada, é um campus que funciona em espaços alugados ou cedidos pela Prefeitura. Conseguimos também retomar as obras lá, mas o recurso que tínhamos era insuficiente para a conclusão. Em Ituiutaba tem um prédio grande e importante que precisamos de mais uns 12 milhões para terminar. Então eu diria que esses são desafios permanentes nessa atual gestão. Temos que dar um jeito de, se não resolver tudo, pelo menos equacionar, encontrar um caminho.

A universidade também precisa atuar em outras áreas. Atualmente a graduação tem uma evasão e retenção que são problemas importantes. Muitos estudantes ingressam na universidade, mas a abandonam, outros ficam presos em disciplinas. Ao invés do aluno concluir o curso em quatro, cinco ou seis anos, ele vai concluir em oito, nove ou dez. O orçamento da universidade é baseado na taxa de sucesso, no número de egressos e não no número de alunos. Há questões das mais variadas, temos tido também docentes e servidores, mas em especial estudantes com problemas relacionados a vida moderna, pressão da universidade, bullying, questões de diversidade e inclusão, falta de recurso para viver com dignidade, entre outros motivos.

Na busca pela qualidade acredito que a UFU avançou muito. Quando falo qualidade, não digo uma universidade elitista, muito pelo contrário, digo uma que aproveita bem os recursos que tem e que pode formar bons cidadãos e bons especialistas nas áreas escolhidas.

 

Novos cursos de graduação e pós-graduação?

Há muita demanda, às vezes prefeitos e presidentes de câmaras municipais procuram a universidade pedindo por aberturas de novos cursos e pós-graduações. Em todos os campi existem reivindicações. Em Ituiutaba, por exemplo, acredito que precisamos ter mais cursos de engenharia pela simples razão de existir apenas um. Monte Carmelo, Patos de Minas e Uberlândia também possuem demandas, sem citar cidades da região que não tem campus. Infelizmente o MEC já nos sinalizou nesse sentido que ainda não é o momento, então temos que aguardar.

Pós-graduação já é mais simples, acabamos de abrir o primeiro curso de mestrado na área multidisciplinar em Monte Carmelo. Patos de Minas já tem dois, isso são grandes ganhos pros campi. Os professores jovens desses lugares que às vezes ficam preocupados querendo atuar na pós-graduação atendem a essa expectativa, os estudantes que lá estão, também tem uma perspectiva de continuidade nos estudos, ou seja, é bom pra todo mundo.

Como o cenário econômico e político brasileiro afeta a UFU?

Economicamente uma universidade de qualidade é caro, então ela vai demandar sempre por recursos. Nós não temos tido investimento. Isso gera uma cadeia de coisas que na falta de uma delas há um transtorno. O que significa que não podemos construir um prédio novo, temos dificuldade para renovar equipamentos, e a demanda é alta. Um exemplo de setor de alta necessidade e muita exigência que se aprimora a cada dia é a área de informática. Se as instituições não renovarem seu pátio de informática elas não conseguem operar a si mesmas. Temos essa e outras necessidades, como as de manutenção, que também precisam ser atualizadas, pelo contrário começa a haver mais problemas. Se também não houver investimento na pós-graduação e pesquisa, evidentemente trabalhos em andamento são prejudicados. Precisamos de bolsas, para termos a iniciação científica. Entre uma série de outras coisas.

No que diz respeito ao novo governo, já temos um orçamento de 2019 encaminhado, que foi o congresso atual que trabalhou na proposta orçamentária. Do que sabemos pro próximo ano, no que diz respeito ao custeio da universidade está razoável. O investimento está aquém do que precisamos, é necessário ver  como o próximo governo vai equacionar isso.

Estamos em uma esfera extremamente criativa, ter pessoas que estão envolvidas nesse processo de adquirir novos conhecimentos, naturalmente traz ao espaço muita efervescência, cultura e política. Isso deve ser preservado porque é próprio e fundamental da universidade, não é um atributo que você põe ou tira conforme o seu interesse. Então em relação a outros aspectos a universidade é um ambiente plural. Os direitos básicos das pessoas devem ser respeitados, a livre manifestação de ir e vir e de exprimir suas próprias ideias. Nessa discussão a UFU tem uma particularidade, nosso estatuto prevê uma defesa dos direitos humanos e preservação da paz. Diante de uma sociedade que nos observa nós servimos de referência, então é bom que sejamos uma boa referência.

 

Como o senhor imagina a UFU nos próximos 40 anos?

A UFU ainda pode ter um crescimento bastante significativo na região, ela ainda pode ter mais alunos do que já tem, uma pesquisa ainda mais reconhecida nacional e internacionalmente. Creio que se formos pensar em médio ou longo prazo é provável que alguns de nossos campis localizados fora de Uberlândia tenham um crescimento ao ponto que queiram ter vida própria. Tudo isso depende do crescimento do país e como essas questões serão todas organizadas.

Uberlândia tem uma vocação natural para a tecnologia, tem um grupo na cidade mirando-a para o futuro, nessa questão de cidade inteligente, e a UFU tem que estar inserida nesse contexto todo. Obviamente tudo isso vai depender do desenvolvimento econômico e social do Brasil nos próximos anos.

Dois anos após minha contratação, a UFU torna-se federal, antes disso ocupávamos um pequeno espaço no campus Santa Mônica e eu jamais imaginei que teríamos aquela oportunidade tão rapidamente. Na época houve uma grande greve, havia o temor de que acontecesse o inverso, de que ao invés de federalizar a universidade, ela se tornaria privada. Eu acredito que a Universidade Federal de Uberlândia tem potencial para continuar nos surpreendendo nas próximas décadas.

 

 

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