Um ano da ocupação do Restaurante Universitário

Participantes da ocupação contam como foi a iniciativa e o que ela desencadeou

Por Marina Barquete

Em dezembro de 2016, foi inaugurado provisoriamente um novo Restaurante Universitário (RU) na UFU e o antigo RU ficou desativado, devido à falta de verbas para reestruturar e ampliar o local. Após nove meses, no dia 12 de setembro de 2017, estudantes da Universidade  e pessoas da comunidade iniciaram a ocupação do local para a criação de um ambiente artístico, de lazer e de manifestação cultural. Durante a ocupação, foi criado o Núcleo de Cultura e Arte Carolina Maria de Jesus (NuCA), com a finalidade de promover  programações culturais, exposições, e reuniões para discutir situação da ação.

Um ano depois, o local permanece desativado e sem previsão para a reforma. Parte do espaço foi destinada para a alimentação dos funcionários, outra funciona como ambiente para realização das atividades da Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae) e a última foi atribuída ao Centro de Lutas, utilizado pelo projeto Judô e Jiu-Jitsu  UFU, que também oferece defesa pessoal feminina.

O Prefeito universitário, João Jorge Damasceno, explica que esses projetos são provisórios e que a ideia é ampliar o serviço do RU. Porém, sobre o novo Restaurante Universitário, ele conclui: “embora seja um espaço provisório, já está se tornando permanente, devido à escassez de recursos para a construção de outro”.

Durante os dois meses de ocupação, o aluno do mestrado de  Geografia da UFU Vinicius Fileto relembra como foi o ato de resistência na ocupação do RU. “Fiquei todas as noites no local, conciliando com o semestre acadêmico. O maior problema foi a permanência no espaço,  dormindo mal e exposto à visibilidade das pessoas que passavam por lá”. O estudante também complementa sobre a motivação de estar no local. “Eu acreditava muito na causa e considerei que valia a pena ficar ali”.  

Segundo Fileto, a ocupação teve um caráter de esgotamento, mas a considerou válida porque conviveu com pessoas diferentes, inclusive de outros países, e que não precisavam estar naquele ambiente. “Eram pessoas  que não precisavam estar ali. Tinham casa para morar, mas ficaram por um objetivo coletivo, pela universidade”, reflete o estudante.

Diante das perspectivas  para o antigo Restaurante Universitário, Fileto acrescenta: “Por mais que as propostas não tenham sido totalmente atendidas, acredito que a ocupação cumpriu seu papel no sentido de uma formação política dos sujeitos que participaram daquele processo”.

Outro participante da ocupação, o ex-estudante de Física da UFU William Filho, conta a importância da ação para ele. “A ocupação me fez sentir vivo e  enxergar que não devemos aceitar quietos a tomada de espaços que deveriam ser preenchidos cada vez mais por pessoas, não só alunos da universidade mas de toda a comunidade”.

Para o graduando do décimo período de História na UFU e outro participante da ocupação Régis Rodrigues, o objetivo da ocupação foi alcançado. Ele contou que a Reitoria da UFU divulgou uma portaria nomeando os gestores e garantindo o funcionamento do espaço. Segundo ele, porém, não foi dado nenhum fomento financeiro para a continuidade das atividades. Por esse motivo, aqueles que se dispuseram a coordenar o NuCA acabaram sobrecarregados e sem recursos que impulsionassem a realização dos eventos.   Esses fatores culminaram na inviabilidade do projeto.

Para Rodrigues, é preciso entender que os direitos conquistados são resultados de lutas incentivadas pela da mobilização de grupos  “Reconheço que não existe consciência dos processos políticos e da necessidade de participação na vida política, para que estes direitos sejam conquistados”. E sobre a ocupação, conclui: “Conseguimos, por meio do protagonismo dos estudantes e frequentadores da UFU, garantir um espaço voltado para as manifestações culturais no campus. Foi um dos eventos mais significativos na universidade”.

O QUE DIZ A UNIVERSIDADE

A partir da inauguração do novo RU e a inutilização do antigo, os recursos para reforma e ampliação do prédio não seriam mais utilizados imediatamente. A Pró-Reitoria de Assistência Estudantil  (Proae) identificou algumas necessidades dos estudantes e levou as atividades que estão funcionando no espaço.

Segundo a Diretoria de Cultura (Dicult), para utilizar aquele espaço como fonte de ações culturais, seriam exigidas reformas e ajustes internos no local, como, por exemplo, melhoria na iluminação e transparência dos vidros e retirada de materiais do antigo RU.

O diretor de Cultura, Alexandre Molina, explica que a Dicult encaminhou uma proposta de auxílio financeiro para a possibilidade de exercer atividades culturais durante o período em que o prédio estivesse aguardando a disponibilização de recursos para a reforma. No entanto, o projeto do judô, que está sendo realizado no momento, já havia recebido um recurso para iniciar as atividades.

A COMISSÃO

Molina conta que a Dicult participou de uma comissão, juntamente com a Pró-reitoria de Extensão e Cultura (Proexc), Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae), Prefeitura Universitária e representantes dos estudantes, criada na época da ocupação para pensar ideias e propostas para o espaço.

A comissão propôs, inicialmente, a criação de um documento que pudesse organizar e normatizar o funcionamento daquele local, como exigido nos espaços internos da universidade, a partir de normas que a UFU estabelece. Foi criada, então, uma minuta de resolução para criação de um Regimento Interno e encaminhada para a Pró-reitoria de Extensão e Cultura (Proexc). Enquanto ocorria a análise do documento, a comissão foi destituída por uma decisão administrativa do Reitor, em função de uma quebra de acordo entre as partes.

DECISÃO JUDICIAL

Molina explica que a universidade responde a uma decisão judicial sobre a realização de eventos e isso traz algumas exigências para os eventos que a universidade pode promover, como, por exemplo, a regularização do uso de som, número de banheiros e consumo ou comercialização de bebidas alcoólicas.

“Por algumas vezes o grupo de ocupantes, mesmo alertados pela administração, continuaram realizando algumas atividades dessa natureza. Sendo assim, os trabalhos de análise dos documentos foram interrompidos e a comissão não prosseguiu”, relata Molina.

Para o diretor de cultura, os interesses dos estudantes em transformar o local em um espaço cultural eram muito válidos. “Infelizmente, esse processo não pode avançar. Não foi uma decisão tomada pela administração de forma tranquila. O desejo era dar continuidade às atividades e a proposta de minuta do regimento aponta isso claramente”, finaliza.

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