De um espaço de lazer à função da prática universitária

Alunos iniciam projeto de revitalização do Parque do Goiabal, em Ituiutaba (MG), e trazem soluções para uma melhor qualidade de vida de quem mora na cidade

Por João Ricardo Camilo e Pedro Prado

Quem não consegue esquecer o descaso com o local é a diarista Nelci Baltazar. Ela mora em Ituiutaba desde que nasceu e participou da inauguração do Parque Dr. Petrônio Rodrigues Chaves, também conhecido como Parque do Goiabal. Na época, com 14 anos, ela relembra que além de ter sido a maior reserva florestal da cidade, o Goiabal também garantia várias opções de lazer para a comunidade. “Quando foi inaugurado, a reserva era muito boa, era limpa. Além das árvores, tinham quadras, lagos, espaços para descansar e conversar com os amigos”, recorda Nelci.

Três décadas depois, quem vê o parque hoje pode não acreditar na fala da Nelci. Isso porque o Goiabal, que já foi sinônimo de preservação e um dos mais importantes símbolos ecológicos do Triângulo Mineiro, hoje enfrenta sérios problemas com o descaso do poder público.

Localizado na zona sul da cidade de Ituiutaba (MG), as obras de delimitação e manutenção da reserva do Goiabal começaram em 1977, mas foi só quase dez anos depois que ele foi inaugurado. O objetivo era aproveitar os mais de 375 mil m² de área verde, o que corresponde a quase 38 campos de futebol, para criar um espaço de uso comum e preservação da biodiversidade local, além de promover a interação entre o lazer com a natureza para garantir melhor qualidade de vida para a população tijucana.

Um dos grandes destaques do parque eram as várias espécies de animais que compunham o zoológico do Goiabal, como onças, jacarés, cobras e até aves raras, que faziam parte do cenário de vegetação de cerrado mineiro.

Com o passar do tempo, a falta de manutenção da infraestrutura do parque fez com que diminuísse o interesse da população pelo local. A consequência disso foi que, em 2006, por determinação da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo da cidade, o parque foi fechado. Com a justificativa de verbas insuficientes para a conclusão da manutenção, ao todo foram seis anos de portões fechados para visitação.

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Muitos objetos são encontrados descartados pelo parque, sendo a maioria embalagens de comidas e bebidas de materiais não degradáveis. Foto: Tuila Tachikawa.

Nelci conta que o longo tempo de descaso com o parque afetou também sua biodiversidade: “A reserva não conta mais com todas aquelas espécies nativas que tínhamos antes, não se vê mais tantos pássaros, macacos e jacarés por lá. No começo, os cidadãos até ficaram preocupados com o fechamento do parque, mas acostumaram tanto com o descuido, que hoje ninguém mais lembra do Goiabal”, afirma ela.

Foram cerca de um mês de obras para recuperação e revitalização do local. Entre as melhorias, a construção de um muro, rede de água tratada, espaço para quiosque e um restaurante. Até que em meados do ano de 2012, o Goiabal foi reaberto para visitação ao público, mesmo em meio aos reparos que ainda estavam sendo feitos. Na época, o secretário do Meio Ambiente do município, Dênis Andrade, informou que o foco principal era transformar o parque em uma unidade de educação ambiental.

As obras prometidas em 2012 nunca terminaram. A prefeitura alegou falta de recursos para tentar combater o principal problema do parque: as voçorocas, como são chamadas as grandes erosões. O professor do curso de Ciências Biológicas da UFU Pontal, Lucas Matheus da Rocha, explica que devido a expansão urbana da cidade, durante o período em que o parque esteve fechado, bairros começaram a se aproximar das bordas da reserva e irregularidades no sistema fluvial de residências e condomínios apresentavam escoamentos para dentro do Goiabal, o que culminou na aparição de voçorocas, consequência de um processo de erosão no solo da reserva.

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Idealizadores do Goiabal Vivo na parte mais profunda de uma das voçorocas presentes no interior do parque. Foto: Tuila Tachikawa.

No ano seguinte, em 2013, a Prefeitura determinou novamente o fechamento da reserva para visitação da população, entendendo que as voçorocas representavam risco aos frequentadores do local. Ainda nesse histórico, em 2014, um incêndio atingiu a reserva ambiental. As chamas se alastraram e foram queimados mais de mil metros quadrados da vegetação do parque. Equipes do Corpo de Bombeiros foram acionadas para apagar o fogo. Os militares suspeitam que o incêndio tenha sido criminoso.

Em 2015, por iniciativa da coordenação do curso de Ciências Biológicas do campus UFU Pontal, localizado ao lado da reserva do Goiabal, alunos e professores iniciaram um plano de estudo e projeto de reestruturação do parque, o objetivo era transformar o local em um jardim botânico e dar a oportunidade do espaço servir como um campo de pesquisas na área de botânica e biogeografia. Na época, uma parceria para a execução do projeto foi solicitada a Prefeitura da cidade, que até chegou a receber a liberação de recursos para a recuperação das erosões, mas o secretário de Planejamento, Carlos Novaes, alegou que as verbas não eram suficientes. O projeto não foi aprovado pela Caixa Econômica Federal.

Foi então que no início deste ano, completados 12 anos de inatividade do parque, que um grupo de estudantes do curso de Ciências Biológicas da UFU Pontal iniciaram a implementação do Coletivo Goiabal Vivo na cidade, com o objetivo de atuar nas mediações de diálogos entre a Prefeitura e a UFU para a reabertura do local, além de tirar do papel o plano de reestruturação da área feito em 2015.

O estudante do 4º período de Ciências Biológicas, Calebe da Silva, idealizador e fundador do coletivo, conta que a ideia não partiu apenas com o objetivo de regularizar uma área de pesquisa para a universidade, mas também de revigorar o mais importante espaço de conservação ambiental da região. “A vegetação presente no Goiabal é rica e muito rara, já que é uma mata de transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica. Todas as espécies nativas aqui são primárias, ou seja, nunca foram desmatadas e depois reflorestadas”, explica o estudante Calebe quando questionado sobre a importância da área para a população.

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Tronco de árvore evidencia cortes realizados por visitantes na vegetação exótica do Goiabal. Foto: Tuila Tachikawa.

A reportagem do Senso Incomum procurou a Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo de Ituiutaba para saber qual era o futuro do Goiabal. O Agente de Desenvolvimento do Município, Elton Angelo Garcia, que conversou com nossa equipe. Ele reconhece que o parque é muito importante para a cidade, e justifica atual situação do local com a falta de recursos para manutenção. “O Parque de Goiabal é o pulmão da cidade, e merece atenção especial da gestão municipal. Recentemente foi feito obras na estrada que dá acesso ao parque e a compra de material para reparos no alambrado, mas ainda falta muito”, diz Elton, por telefone.

Ele adianta que um projeto de revitalização do parque já está sendo desenvolvido na Secretaria. Nele prevê uma nova guarita, vigilância monitorada, pista de caminhada, espaço de equoterapia, área de descanso e salão de convivência. “O que separa o projeto de virar realidade é a falta de recursos”, lembra.

Ainda segundo Elton, nas Leis de Diretrizes Orçamentárias, que orienta o repasse de recursos do município, desde o ano passado o orçamento do Parque é de 12 mil reais. Ele diz que essa é a mesma previsão para o ano que vem. Nós tentamos checar essas informações mas até o fechamento desta edição, o portal de Transparência da Prefeitura de Ituiutaba estava fora do ar.

Sobre o projeto Goiabal Vivo, o servidor vê com bons olhos a iniciativa dos alunos: “É extremamente importante pensar na preservação do parque, e tudo que venha somar com isso precisa ser discutido, ainda mais se enriquece o conhecimento dos alunos. A prefeitura está aberta para a parceria e diálogo com o grupo”, ressalta Elton. Ele comenta ainda que a parceria entre o movimento em prol do parque e a Prefeitura em 2015 é de responsabilidade da gestão anterior.

Outra esperança de Elton é nos recursos como podem vir com a nova composição do legislativo, eleito nas eleições gerais de 2018. A cidade de um pouco mais de cem mil habitantes conseguiu eleger um deputado federal. Enquanto isso, a Dona Nelci, os alunos da UFU e população ituiutabana aguarda ansiosamente em poder voltar a frequentar o parque que conheceram a trinta anos atrás.

O estudante que cursa o 4º período de Ciências Biológicas, Henrique Oliveira, e também integrante do Coletivo Goiabal Vivo, explica que mesmo com as promessas de revitalização da Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo, os trabalhos do Coletivo continuam até que se apresentem resultados concretos atingidos. “Nosso plano de agora para frente é levar para frente um abaixo assinado com a população da cidade, para que as obras de manutenção do parque se iniciem o mais rápido possível. É de extrema importância contarmos o apoio tanto da comunidade acadêmica e que usa o parque para pesquisas, como com o dos cidadãos da cidade que usufruem da reserva por lazer”, finaliza o estudante.

A petição promovida pelos alunos ainda está em aberto e você pode contribuir com ela assinando-a através do link bit.ly/Colabore-Goiabal-Vivo

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