Baterias universitárias trazem a força cultural ao esporte

Os grupos deram sua batucada inicial dentro da UFU há quase 50 anos

Por Ana Luíza Vargas

Apoio, amor à camisa, música e integração. As Baterias Universitárias surgiram para ajudar, das arquibancadas, os atletas durante as competições. Essa prática coletiva teve seu início no Brasil, dentro da UFU, antes mesmo de sua federalização, há 40 anos. Atualmente existem 21* baterias na universidade que tentam incentivar ao máximo os atletas a alcançar as vitórias. No entorno do universidade, os sons emitidos pelo tamborim, agogô e repique dos ensaios já fazem parte do território sonoro local. Entre os batuques, destaca-se a que é considerada a primeira bateria universitária do país.

A Charanga, bateria das Engenharias da UFU Uberlândia, foi a pioneira dessa cultura que hoje só cresce dentro desse ambiente. Após a sua criação, em 1969, outras centenas foram surgindo e, segundo dados do blog Bateria S/A, em 2011 existiam mais de 250 baterias universitárias no Brasil. Esses números ainda apontam para a formação de 18 novos grupos todos os anos.

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A Charanga, desde sua criação, tornou-se um símbolo, através de uma identidade visual amarela e preta retratada nas roupas, nas paredes e nos próprios instrumentos. Foto: Eduarda Yamaguchi

A importância de relacionar a música com o meio acadêmico é evidente ao perceber o número de adeptos que as baterias possuem. Para o coordenador do Grupo de Percussão da UFU e professor no curso de Música, César Traldi, as baterias, desde o seu início nas escolas de samba, já são consideradas movimentos culturais, sociais que trazem uma integração entre as pessoas e funcionam para a socialização. Essa importância sociocultural faz com que muitos alunos se tornem parte dessas entidades dentro da universidade, mantendo o costume durante muito tempo. “O papel mais importante para a Charanga é dessa atividade social, do trabalho em grupo e não necessariamente uma questão musical”, acrescenta.

História é o que não falta para quem já fez parte da Charanga anos atrás. O ex-membro da bateria entre 1982 e 1987 José Francisco Andrade conta que essa integração com outras pessoas da instituição foi algo motivante para sua entrada na entidade. Andrade acrescenta que, dentro do próprio grupo, era possível perceber estudantes com culturas completamente diferentes, mas convergidos para proporcionar música e alegria. “Os grupos de convivência ensinam coisas que a Charanga também apresenta para os participantes, como ter respeito, pois somos pessoas diferentes e devemos nos acolher e ajudar”, relata o ex-charangueiro, que ainda diz ter contato com os atuais membros, mesmo tendo passado décadas de sua participação.

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José Francisco Andrade relembra sua participação na Charanga durante os anos 1980. Andrade aparece, na primeira foto, ao centro com o instrumento conhecido como “surdo”. Fotos: Arquivo pessoal e Eduarda Yamaguchi.

Manter esse elo e não acabar com a tradição da bateria, que em 2019 completa 50 anos, é algo prezado pelos integrantes. Segundo o atual presidente da Charanga, João Fábio Goulart, os ensaios acontecem às quartas-feiras como forma de manter o costume histórico da entidade. Goulart também menciona sobre a forma que as baterias universitárias tentam atrair os ingressantes dos cursos para dentro da organização. Para ele, fazer parte da bateria não implica, necessariamente, em tocar algum instrumento. “Quando entram novos alunos, fazemos apresentações e chamamos para participar. Não é só para tocar, é mais um sentimento mesmo de ser charangueiro, gostar da Engenharia e isso envolve muitas coisas além da própria música”, explica.

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João Fábio Goulart, atual presidente da Charanga, auxilia os participantes da bateria nos ensaios semanais, que acontecem às segundas e quartas-feiras. Foto: Eduarda Yamaguchi

Muitas vezes, o problema de manter a tradição é que atitudes do passado não cabem mais no atual cenário em que a discriminação e o preconceito não são tolerados. Conhecida por alguns como “a bateria dos hinos preconceituosos”, Andrade afirma que, antigamente, eles não entendiam os hinos entoados como homofóbicos e machistas, sendo considerados brincadeiras sem caráter ofensivo. Já Goulart reconhece que, quando a Charanga foi criada, a mentalidade era diferente e hoje eles tentam combater isso. “Não posso falar que não existe mais nenhuma atitude inadequada, só que isso é uma evolução. Não tem como, em pleno século XXI, nos comportarmos como antes.”

Baterias como a Charanga representam uma legião de universitários e resultam em uma cultura mais ampla do que puramente a música. Como afirma Goulart, a entidade não pode ser só a bateria de arquibancada e de desafio. “Não é só música, não é só arte, são ideias que a gente leva”, finaliza o presidente.

*Baterias da UFU: Anabólica (Nutrição); Artilharia (Artes); Charanga (Engenharia Uberlândia); Computaria (Computação); Crocodilo (Fisioterapia); Dentadura (Odontologia); Enfantaria (Enfermagem); Engrenada (Engenharias Pontal); Fúria (Educação Física); Gnomada (Engenharias e Biotecnologia Patos); Incendiária (Biologias); Insana (Psicologia); Invasora (Agrárias); Lobatuque (XVII de Julho); Medonha (Medicina); Mercenária (Monetária); Meritíssima (Direito); Mocaralho (Moca); Neurótica (Biologia Pontal); Predadora (Humanas Uberlândia); Primata (Exatas).

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