Adesão de Quilombolas na UFU ainda é baixa

Falta de diálogo entre academia e comunidade é uma das causas da pouca aderência de alunos oriundos de quilombos

Por Naiara Ashaia

O levantamento das comunidades quilombolas do Brasil, realizado pela Fundação Cultural Palmares em 2017, concluiu que o estado de Minas Gerais possuía 328 dos 3051 quilombos brasileiros. Devido à estrutura das comunidades e à falta de conhecimento sobre as universidades, o número de quilombolas no ensino superior é pequeno.

De acordo com a Pró-Reitoria de Assistência Estudantil (Proae), da UFU, dentre os 84 alunos que participam do Programa Bolsa Permanência (PBP) na Instituição, apenas dois são oriundos de comunidades quilombolas. Um deles é o estudante de Ciência da Computação Túlio Roquete, do Quilombo São Domingos, Paracatu (MG).

Influenciado por um primo que cursou Química Industrial na UFU, Roquete passou o ensino médio estudando para o vestibular. Ele relata que a tradição em São Domingos é tão presente que outros primos preferem continuar na comunidade e cursar faculdade pelas proximidades da região.

Roquete participa do PBP, iniciativa do Governo Federal. O objetivo é possibilitar a continuidade de alunos de baixa renda nas universidades, promovendo acesso ao ensino superior. O recurso corresponde a um auxílio de R$400, estabelecido pelo Ministério da Educação. Para indígenas e quilombolas, é garantido pelo menos o dobro desse valor. “Só com esse dinheiro eu já consigo me manter. Pago o aluguel, as contas e a minha alimentação”, declara Roquete.

Apesar de receber o benefício, o estudante ressalta que falta divulgação sobre a existência deste. “Antes de vir para a faculdade, ninguém na minha família conhecia a bolsa. Meu primo estudou aqui sem saber que podia solicitar”, destaca.

4
Para a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro Brasileiros e Indígenas (Neab) diz que a bolsa não é suficiente para a permanência do aluno. Foto: Gabriel Caixeta

Políticas públicas de inclusão
Outro problema é a falta de políticas públicas para alunos quilombolas. Roquete acredita que uma forma de promover o conhecimento, tanto sobre os quilombos quanto sobre a universidade, seria manter o aluno ligado à comunidade. “Cobrar trabalhos envolvendo a comunidade é uma forma de expandir o conhecimento sobre nós para outras pessoas”, explica.

O estudante de Engenharia Química Paulo César da Silva soube da bolsa por uma aluna do curso de Letras da UFU, que pesquisava em seu mestrado sobre os quilombos da região de Varjão de Minas, entre eles a Comunidade Corte. Ao conseguir a certificação como quilombola, a população soube de benefícios como o PBP.

Silva relata que recebeu críticas quando recorreu ao auxílio. “Pessoas da minha turma me criticaram, questionando porque nós temos o direito de receber a bolsa agora, se sofremos anos atrás”. Mesmo assim, o estudante acredita que o PBP é importante por ser uma forma de retratar a dívida histórica do país com a população negra.

O diretor da Proae, Noriel Viana Pereira, conta que alunos de baixa renda podem ter acesso às bolsas de assistência estudantil. “Não ocorre grande procura de informações, tampouco o cadastro no site do MEC, uma vez que não é a UFU quem coordena as inscrições”, diz. Pereira informa que foram aprovadas mais quatro bolsas para quilombolas em 2018.

Para a professora doutora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), que coordena o Núcleo de Estudos Afro Brasileiros e Indígenas (Neabi), Maria Clareth Gonçalves Reis, apenas o PBP não é suficiente. “Permanência não é apenas uma bolsa. É preciso também o apoio afetivo, trabalhar a relação psicológica. A bolsa não vai suprir o racismo que o aluno sofre”, aponta.

Para ela, uma das dificuldades para a saída da comunidade é o preconceito racial, aliado ao cultural: ser oriundo de um quilombo. A professora se mostra preocupada com a relação estabelecida entre o universo acadêmico e o quilombola. “Muitas comunidades hoje não aceitam mais pesquisadores, pois eles os tratam como objeto. Eles não são objetos de pesquisa, são sujeitos da pesquisa”, argumenta.

Para o futuro, Reis afirma que a entrada de quilombolas no ensino superior deve contar com a colaboração dos professores. “Queremos criar esse espaço na universidade. Isso fortalece a ação e a trazer outros jovens. Traz visibilidade para esses sujeitos que nós consideramos tão importantes”, conclui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: