Os desafios de produzir ciência na UFU

Corte de verbas das agências de fomento prejudicam a manutenção dos projetos de pesquisa da universidade

Por: Jhonatan Dias

 

O conhecimento é um dos pilares de toda sociedade. Vacinas para promover a saúde, noções de ética que regem o comportamento e, até mesmo, computadores e celulares são exemplos de conquistas científicas, possíveis devido aos esforços dos pesquisadores. A produção científica brasileira está alicerçada nas universidades públicas. Entretanto, os cortes de financiamento das agências de fomento à pesquisa estão precarizando o exercício desta atividade.

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) anunciou, em um ofício ao governo federal, que, se houver ainda cortes das verbas, 200 mil bolsas serão extintas até 2019. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também exigiu mais investimentos em bolsas de estudo para não prejudicar os investimentos e as atividades do órgão. Os cortes em pesquisa podem afetar a UFU.

Segundo o diretor de pesquisa da Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação, Kleber Del Claro, o ano de 1992, na gestão do então reitor Dr. Nestor Barbosa,  foi decisivo para o incremento da área da pesquisa na universidade com o impulso a programas de pós-graduação já existentes na universidade, como o de Pós-graduação em Engenharia Mecânica e Engenharia Elétrica,  e a criação de novos cursos como o de Genética e o de Ecologia. Atualmente, a UFU possui aproximadamente 5.000 alunos de pós-graduação, segundo a Diretoria de Pesquisa (DIRPE). Além disso, os professores foram estimulados a aperfeiçoar a carreira acadêmica pela realização de cursos no país e também no exterior. Um exemplo é a recente aprovação do programa de internacionalização da UFU frente à Capes, o Print.

 Iniciação Científica

É comum imaginar que a pesquisa na UFU está apenas relacionada ao ambiente do Ensino Superior. Contudo, há opções que estimulam o pensamento científico antes deste período, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior, que atualmente possui 128 bolsas financiadas pela Fapemig, de acordo com a Dirpe. Para orientar estudantes do Ensino Médio, é preciso ser docente pleno da UFU ou funcionário técnico-administrativo, com a titulação mínima de mestre. “O programa é importante para que os adolescentes se sintam mais estimulados a se tornarem cientistas no futuro e para mostrar que a ciência não está distante de suas realidades”, afirma Del Claro.

A iniciação científica é importante para a carreira acadêmica, pois muitos pesquisadores tiveram o primeiro contato com a ciência logo na graduação. Para participar, é necessário selecionar um orientador, criar um projeto de pesquisa e ficar atento aos editais de concessão de bolsas, ou seguir os critérios da iniciação científica voluntária.   A UFU possui cerca de 950 pesquisadores com bolsa e 1200 investigadores voluntários, de acordo com informações da Dirpe. É o caso do estudante de Geografia Paulo Amaro, pesquisador no Laboratório de Geografia Cultural e Turismo com bolsa da CNPq há 4 meses. Seu trabalho aborda a resiliência camponesa no Cerrado do Triângulo Mineiro e investiga a cultura e as modificações da transição da zona rural para a urbana, por meio de investigação de campo e análises de documentários produzidos pelo próprio laboratório. “Meu interesse pela temática surgiu após cursar a disciplina de Geografia Cultural. Pretendo me especializar na área pela pós-graduação”, conta. Amaro também ressalta a importância da iniciação para este caminho. “Ajuda bastante na elaboração do TCC, além de contar pontos no Currículo Lattes. É uma experiência de muito aprendizado”, complementa.

Pós Graduação

O mestrado exige o diploma de graduação. Existem duas modalidades: mestrado acadêmico (que visa a formação de professores universitários e cientistas) e profissional (que tem por objetivo criar produtos para o mercado de trabalho). Geralmente, o curso dura dois anos para construir a pesquisa, e ao final há apresentação de uma dissertação . A excelência de alguns programas atrai pesquisadores de todo o país, como a Engenheira de Petróleo Edja Moura, graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e que cursa mestrado em Engenharia Mecânica na UFU. Entretanto, ela relembra algumas dificuldades que já enfrentou em suas pesquisas: “A comparação entre a pesquisa brasileira e a estrangeira é de atraso. O que estamos iniciando aqui é uma pesquisa de tecnologia consolidada no exterior. E isso não é por falta de pessoas capazes, mas pela burocracia, falta de equipamentos e de recursos. Há pessoas comprometidas, mas que não são valorizadas”, comenta.

Já o doutorado oferece um conteúdo mais aprofundado e teórico sobre as áreas do conhecimento, e é bastante exigente. Em média, os cursos têm a duração de quatro anos, e  ao final deste período há a defesa da tese, trabalho inovador no campo de pesquisa em que o doutorando atua. O título de Doutor é exigido em muitos concursos para professores universitários. Frederico Costa, formado em Engenharia Mecatrônica pela UFU, atualmente pesquisa Acústica e Sistemas Embarcados. “Meu interesse pela temática vem desde o 5º período da graduação, quando comecei a iniciação científica pelo LTAD [Laboratório de Tecnologia em Atrito e Desgaste]”, conta. O cientista reitera que este fator é de extrema importância para os futuros pesquisadores: “o primeiro contato com a pesquisa na graduação permite aplicar os conhecimentos, conhecer os softwares e os equipamentos que estão em alta, além de familiarizar o pesquisador com as metodologias de pesquisa. Estas são algumas experiências valiosas para quem deseja seguir carreira acadêmica”, completa, ao lembrar que ele e a mestranda atuam no Laboratório que recebe financiamento da Petrobrás e da Agência Nacional de Petróleo e Gás.

O diretor de Pesquisa da UFU, Kleber Del Claro, ainda mostrou-se receoso em relação ao futuro. “Não dá mais para a ciência brasileira viver sob tanta incerteza. Isso tem ocasionado uma fuga de pesquisadores promissores ao exterior, onde as ofertas são fáceis de serem encontradas”, afirma. O biólogo também reitera como o pouco estímulo ao conhecimento afeta a economia: “é necessário tornar interna a produção de materiais no Brasil, a fim de importar menos produtos. A ciência é fundamental para o desenvolvimento de novos sistemas de produção, automação de processos”. Ele também sugere medidas. “É necessário dar segurança ao pesquisador, que precisa saber se terá financiamento e o mínimo de condições de permanecer na Universidade. E isso não é pedir favor ao governo, mas sim exigir um trabalho digno”, conclui.

 

Divulgação Científica

A jornalista Diélen Borges realiza palestra sobre a Divulgação Científica da Diretoria de Comunicação da UFU

 

Outra ação importante para a UFU é a Divulgação Científica. No momento, a Universidade tem museus, projetos de extensão e o portal Comunica Ciência, que publica pesquisas desenvolvidas na instituição, por meio de uma linguagem acessível. De acordo com a jornalista Diélen Borges, “a comunicação pública da ciência é essencial para que a população de fora dos muros universitários conheça e se familiarize com as produções, e também para criar uma ‘cultura científica’” O portal está em uma das editorias do site Comunica.

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