A força dos movimentos estudantis na UFU

Desde a federalização, o diretório exerce influência na história da universidade

Por: Maria Júlia Araújo

O movimento estudantil foi pauta recente nos principais noticiários do país: estudantes de universidades em variados cantos do Brasil, no período eleitoral, manifestaram suas opiniões políticas a favor da democracia, pendurando placas com o slogan “Contra o fascismo”. Tal ação gerou discussões no Judiciário, que, por fim, determinou a retirada das faixas com esses dizeres, incluindo as que estavam na UFU.

A professora de Sociologia da UFU, Rafaela Cyrino, explica que a palavra “fascismo”, destacada na placa, significa uma imposição excludente das diferenças e do diálogo, e, consequentemente, do conhecimento. “A falta da mediação do outro ocasiona o radicalismo. É uma forma de anulação da democracia e da política”, informa.

Cyrino completa que a manifestação não é necessariamente partidária, e acredita que a universidade deve ser um espaço para isso. “O debate sobre o fascismo é político, da mesma forma que um liberal seria. Não existe a neutralidade. A universidade é um espaço de construção de conhecimento, inclusive em momentos políticos. É papel dela permitir que haja diversos tipos de discussões”, continua.

Os debates acerca da manifestação política dos estudantes fazem parte da UFU desde seus primeiros anos. É o que atesta ex-estudante de História, ex-membro do Diretório Acadêmico do curso e atual professor da universidade Newton Dângelo. Ele conta que, no início da federalização, houve uma forte mobilização dos universitários na organização de movimentos em prol das Diretas Já, além da realização de palestras e a criação de comícios internos.

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A Plenária Ufu Antifascismo foi um movimento estudantil organizado dias após o resultado das eleições presidenciais no Brasil. Foto: Marina Barquete.

O movimento estudantil aborda, além das pautas externas, políticas institucionais e a luta pela realização dos interesses dos alunos. Nesse contexto, surgiu o Diretório Central dos Estudantes (DCE), entidade independente, composta por estudantes da UFU, matriculados em cursos de graduação ou disciplinas isoladas na universidade. Sua finalidade central é representar a comunidade estudantil e promover melhorias em sua formação universitária.

A primeira gestão do DCE surgiu em 1971, e desde então, ele foi o responsável por conquistas como eleições paritárias para reitor, intercampi, moradia estudantil, restaurante universitário (RU) e uso do nome social por travestis, transexuais e transgêneros. Dângelo explica que, nos primeiros anos de federalização da universidade, uma das demandas era a valorização dos professores. “No período, a atuação no magistério era basicamente o que tínhamos para o mercado de trabalho”, relata.

Ele completa que a primeira geração atuou ativamente no plano acadêmico, mas que a entidade tinha também uma preocupação com a participação política dos estudantes na esfera dos conselhos superiores, dos cursos e colegiado. “Havia uma representação forte, no sentido de trazer essas demandas para dentro da UFU, e, ao mesmo tempo, buscava-se politizar o movimento estudantil e expandi-lo para além das pautas acadêmicas” afirma.

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O DCE é localizado no Centro de Convivência (CC) da UFU e atualmente é formado pela chapa “O mundo é de quem faz”. Foto: Marina Barquete.

A gestão atual é a chapa “O mundo é de quem faz”, composta por alunos de diferentes áreas do conhecimento, inclusive dos campi avançados. Uma de suas coordenadoras gerais, Renata Cardoso, ressalta que o DCE exerce papel fundamental na universidade. “Temos a função de organizar os estudantes, promover debates e conscientizar sobre as políticas institucionais. No contexto atual, em que há ameaças a retirada de direitos dentro da própria instituição, a organização ganha ainda mais importância”, enfatiza.

A coordenadora do Diretório, Bianca Freire,  afirma que a relevância da entidade foi mantida com o passar dos anos. “Os DCEs e os movimentos estudantis sempre tiveram a importância de defender os interesses dos estudantes perante a Reitoria e o Governo Federal. Não só em assuntos cotidianos, como assistência, mas também em questões da política nacional que afetam diretamente nossas vidas”, declara.

Apesar dessa importância, uma pesquisa online feita pelo Senso Incomum com 110 pessoas apontou que 59,4% dos estudantes da UFU não se sentem representados pelo Diretório. As principais justificativas para isso foram a falta de informação e conhecimento sobre as decisões, demandas e a própria entidade. Ao todo, 31,8% dos entrevistados afirmaram não saber o que era o DCE. Foram ainda evidenciadas queixas, como falta de divulgação e deficiência na via de comunicação entre o órgão e os estudantes.

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