GRUPOS RELIGIOSOS ENFRENTAM INTOLERÂNCIA NA UFU

A resistência de organizações que expressam sua religiosidade no ambiente acadêmico

Por: Rodolffo Garcia

“A universidade é um lugar público onde quero manifestar minha religião”. Assim Thalita Vitória Oliveira iniciou sua fala em conversa para a reportagem, minutos antes da reunião de um grupo religioso na UFU. Esse é um entre os aproximadamente dez outros grupos religiosos que se manifestam na universidade.  

A temática religiosa muitas vezes é tida como objeto de estudo de universitários em seus diversos cursos e formas de discussão, mas nem sempre nota-se uma religiosidade ativa nos campi acadêmicos. A estudante de Design Oliveira, 21 anos, é representante do grupo cristão uberlandense Dunamis Pockets.

Enquanto Oliveira explica que seu grupo celebra Deus cantando e recitando mensagens cristãs em um círculo, Gustavo Lagares, 25, mestrando em Relações Internacionais pela UFU, se reúne com outros estudantes no Aliança Bíblica Universitária (ABU), outro grupo, instituído na UFU há mais de vinte anos.

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Os encontros semanais do Dunamis Pockets geralmente acontecem às terças-feiras ao lado do antigo Restaurante Universitário. Foto: Heitor Gomes

“Somos um grupo diferente dos outros em geral. E estamos focados em um estudo bíblico mais contextualizado para pensar a realidade do universitário cristão e não cristão nos dias atuais”, situa Lagares.

Ambos os espaços de debate possuem uma conexão de respeito entre si, e, por vezes até estabelecem diálogos, a fim de não disputarem locais de encontros. Em questionamento sobre a intolerância religiosa dentro da universidade, Lagares e Oliveira concordam que haja maior preconceito em outras religiões quando comparadas ao cristianismo. “Já aconteceu de zombarem de nós em algumas reuniões, mas nada do que vivencio por manifestar minha fé tem comparação ao que uma pessoa que frequenta um centro umbanda passa”, relata Oliveira.

O estudante de Teatro Diego Veloso, 34 anos, apesar de ser proprietário da Casa Rosa Maria, a 750 metros da UFU, e realizar todos os domingos suas giras de umbanda nunca manifestou sua fé dentro da universidade. A crença do estudante é brasileira, mas frequentemente confundida com a prática de matriz africana candomblé. Diferente de Oliveira e Lagares, Veloso assume que não se sente à vontade para manifestar sua religiosidade em qualquer lugar. Sobre o assunto o estudante e especialista em Direito e Religião Rodrigo Vitorino afirma que essa intolerância vem dentro de uma bagagem cultural:

“Embora ser negro não exija necessariamente ser integrante de religião de matriz africana, há uma associação histórica entre as duas características, o que provoca uma sobreposição entre o racismo e a intolerância religiosa.”

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Diego Veloso sente orgulho em ser pai de santo e receber umbandistas e curiosos em sua casa. Foto: Heitor Gomes

Veloso, embora não se manifeste religiosamente dentro do ambiente acadêmico, explica como driblou o preconceito:

“Sinto que não trouxe minha fé para dentro da universidade, mas levei para minha casa, já que a maioria de quem frequenta a Rosa Maria é aluno ou professor da UFU, explica Veloso.

Ainda de acordo com Veloso alguns episódios de intolerância religiosa dentro da UFU chegam a partir até mesmo dos próprios docentes da universidade. Os três entrevistados, mesmo com perfis diferentes e maneiras singulares de expressarem suas crenças, já foram alvo ou presenciaram episódios desagradáveis.

“Existem zombarias vindo até mesmo de alguns professores que fazem em aula insinuações, menosprezam a inteligência de algum aluno por sua crença”, lamenta Oliveira.

Todavia existe um Centro Brasileiro de Estudos em Direito e Religião (CEDIRE) vinculado à UFU através do instituto de Direito Jacy de Assis para evitar esse tipo de intolerância. O coordenador da iniciativa e Professor da Faculdade de Direito (Fadir), Vitorino, explica que a universidade está ativamente participando da formação de políticas públicas em nível nacional para melhor encargo na responsabilidade institucional contra a intolerância religiosa. E informa que uma cartilha de boas práticas será distribuída, em formato digital, ainda em 2018 a todos os servidores públicos do país.

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As organizações religiosas existentes dentro da UFU muitas vezes servem de auxílio e apoio entre estudantes. Foto: Heitor Gomes

“Caso alguém sofra algum problema, agressão ou ato de discriminação relativo a questão religiosa, nós estamos à disposição para dar o devido apoio jurídico. Só é preciso procurar o Escritório de Assistência Jurídica Popular (ESAJUP) no bloco 5V.”

Dunamis Pockets, Aliança Bíblica Universitária, Casa de Umbanda Rosa Maria e tantos outros grupos religiosos que resistem dentro e fora da UFU são formações que esperam que as organizações favoreçam tanto a lei do estado laico quanto batalhem contra a intolerância, a qual, por advento jurídico universal, viola o artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

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