Reitor faz avaliação do primeiro ano de mandato

Valder Steffen faz uma retrospectiva de 2017 e aponta caminhos para o próximo ano

Por Melissa Ribeiro

Desde o início do ano, universidades federais vêm enfrentando dificuldades para cumprir com o orçamento previsto, devido aos cortes de recursos realizados pelo Governo. Para o atual reitor da UFU, Valder Steffen, o fato inviabilizou obras e a concretização do que ele considera ser os sonhos da Universidade. Steffen faz ainda uma retrospectiva do seu primeiro ano à frente da gestão e anuncia novos projetos.

Senso Incomum: O senhor completou seu primeiro ano na gestão da Universidade Federal de Uberlândia. Qual é o balanço que o senhor faz deste período?

Valder Steffen: O balanço é positivo, embora a situação que nós enfrentamos tenha sido muito mais difícil do que imaginávamos. Mas ela acabou sendo ainda mais desafiadora em virtude do corte de recursos. Esse corte é muito dramático, pois ele corta os sonhos e compromissos da Universidade. Nós tínhamos projetos em andamento que tiveram que ser interrompidos, como em Patos de Minas, Ituiutaba, Monte Carmelo e até no campus Glória, em Uberlândia. Mas isso era absolutamente necessário, porque senão nós assumiríamos compromissos que não poderiam ser honrados.  Houve um prejuízo no planejamento, porque o Ministério da Educação represou o repasse em um momento em que tínhamos diversas ações para serem implementadas.

Uma outra preocupação é a questão da ocupação do Glória. No dia 14 de dezembro de 2017, nós assinamos um termo de compromisso entre a Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais, com a Prefeitura Municipal de Uberlândia, a Associação dos Moradores do Bairro Élisson Prieto [como é conhecida a ocupação] e a Universidade, comprometendo-nos a encontrar uma saída pacífica para o problema. A Universidade se sente vitoriosa enquanto parte da sociedade, uma vez que nada daquilo que fizemos foi com as nossas próprias forças. Agora, evidentemente que, para chegar a isso, se gastou muito tempo, conversa, preocupações e noites sem dormir.

Durante sua campanha eleitoral, o senhor elencou diversas propostas. Quais já avançaram e o que já foi finalizado?

Nós acabamos de adquirir duzentas câmeras que estão sendo instaladas nos diversos campi da Universidade, para estar em funcionamento no início do ano [de 2018], além de uma central de monitoramento no Campus Santa Mônica com vigilância permanente. Acabou gastando mais tempo do que eu pensava, porque o processo licitatório acabou sendo mais longo que o esperado. Nós implementamos por meio do WhatsApp uma ferramenta de segurança que, pelo que eu sei, vem sendo utilizada. No que diz respeito a ações emergenciais iniciais, acredito que isso foi realizado. Nós acabamos de conseguir recursos extra-orçamentários para melhorar a rede wi-fi, um total de R$ 1,7 milhão. Colocamos também mais recursos no campus Monte Carmelo para fazer a obra avançar. A questão é a seguinte: a obra entrou em uma fila de prioridade no MEC e, no ano que vem, teremos mais chances de conseguir os recursos para conclusão. Foi também uma grande vitória participar, com a Prefeitura de Monte Carmelo, do asfaltamento do acesso ao campus. É absolutamente inaceitável aos nossos estudantes e servidores terem que pisar na lama. Esses recursos que eu mencionei não estavam previstos e batalhamos através de inúmeras gestões em Brasília. Foi muito aquém do que gostaríamos, mas pelo menos tivemos sucesso.

Na minha primeira semana de mandato, eu fui a Brasília e apresentei ao senhor ministro [da Educação, José Mendonça Bezerra Filho] uma lista de prioridades. A única coisa que avançou foi uma sinalização de recursos para comprarmos o prédio do Sesi em Monte Carmelo, que vem sendo usado pela Universidade desde a inauguração do campus, através de uma parceria. Mas, se a gente conseguir o recurso, significa que teremos um centro esportivo universitário no campus Monte Carmelo e, além disso, uma estrutura inicial para o caso de querermos no futuro ter um curso de Educação Física. A nossa grande frustração foi o que eu apresentei como prioridade para esse ano ao ministro e não foi atendido: recursos da ordem de R$ 38 milhões. Eu não estava pedindo um recurso estratosférico ou impossível de ser atendido, estava pedindo uma coisa compatível com que a gente já teve de capital no passado. Então, ficamos com um gostinho ruim na boca de não ter tido.

O senhor mencionou desde o início que este ano foi muito complicado para a educação no país, principalmente porque foi estabelecido esse corte de gastos para investimentos nessa área. Como estão sendo remanejadas as prioridades a partir do corte?

A universidade tem um documento extremamente importante chamado Plano Institucional de Desenvolvimento [PID]. É um planejamento de seis anos que foi aprovado no início deste ano. O documento de referência que nós temos é esse: é ele que diz o que vai acontecer com a UFU nos próximos anos. Não há como ser diferente. Se eu chegar lá em Brasília e falar assim: “Gostaria de implantar um campus em Tupaciguara”, ele [governo federal] vai perguntar assim: “Está no seu PID?” Eu vou dizer “não”, ele vai falar “então não”. Nós estávamos com algumas comissões trabalhando na adequação desse planejamento aos recursos que nós temos. O PID tem que se adequar aos recursos disponíveis. Como nós já temos uma ideia dos recursos para 2018, estamos adequando as nossas metas àquilo que nós teremos como recurso. Isso tem sido objeto, inclusive, de auditoria nas universidades. Os órgãos de controle querem saber se as despesas que vêm sendo realizadas são compatíveis com o planejamento aprovado pelo Conselho Universitário, de longo prazo. Teoricamente, o planejamento da nossa universidade deveria ser revisto a cada ano, mas nós não temos fôlego para fazer isso. Se não, a cada ano nós iremos ficar só fazendo planejamento.

O Banco Mundial recomendou ao governo brasileiro, por meio de um relatório, que acabasse com o ensino superior gratuito no país. Mediante este fato, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) lançou um caderno em defesa das universidades federais. Qual é sua opinião sobre o assunto?

Em tom de brincadeira, nós reitores dizemos: “as Universidades Federais recomendam o fechamento do Banco Mundial”. Então isso expressa mais ou menos o que eu acho sobre essa questão. O Banco Mundial deveria primeiramente considerar as condições do Brasil, um país ainda em desenvolvimento. Isso se junta à questão da PEC do Teto de Gastos [PEC 55/2016 no Senado], que veremos que não irá durar 20 anos. Aliás, irá durar muito menos que isso, porque não pode. Vai travar o país. E outra coisa que o Banco Mundial desconsidera – e por isso eu não posso de maneira nenhuma levar a sério as recomendações que são feitas – é que o nosso país ainda precisa de inúmeras políticas públicas para resgatar um pouco dessa dívida social enorme que nós temos. Inclusive, o perfil dos estudantes e das universidades públicas mudou muito depois da expansão das instituições e das políticas de cotas. Hoje, você tem mais de 50% de alunos vulneráveis. Agora, o Banco Mundial vai fazer o quê com isso? O que ele poderia recomendar é que os grandes banqueiros tivessem uma participação maior nas políticas tributárias adequadas. Que eles pudessem participar mais da contribuição dos recursos para que o governo tivesse recursos à disposição para implementação dessas políticas.

Informações divulgadas pela imprensa local dão conta que, em 2015, o Hospital de Clínicas de Uberlândia (HC-UFU) possuía uma dívida de mais de R$ 50 milhões. Em janeiro, o noticiário voltou a falar sobre essa mesma dívida ao citar o orçamento previsto para 2017. Qual é a situação financeira atual do HC? Foi possível sanar parte da dívida? Quais são os impactos dela na vida dos estudantes de residência médica e para a população que depende do Hospital?

Quando se menciona que o Hospital tinha uma dívida de R$ 50 milhões – hoje ela é de cerca de R$ 40 milhões –, a dívida não é do Hospital. É da Fundação de Assistência, Estudo e Pesquisa de Uberlândia (FAEPU), que é uma fundação de apoio privada. Ela é que tem ajudado a universidade na administração do hospital desde sempre. A nossa Faculdade de Medicina, bem antes da federalização, era gerida através da fundação. Anos depois, com a federalização da Universidade, essa fundação se transformou na FAEPU. Uma boa parte dos funcionários que atuam no hospital, da ordem de 3.350, são funcionários da FAEPU. Então, quem tem a dívida é a FAEPU.

A Universidade, hoje, tem duas unidades gestoras. Uma delas é a “UFU” e a outra é “Hospital de Clínicas”. Quando eu disse que nós estamos quitados, eu me referia à instituição pública Hospital de Clínicas, e não à FAEPU. Ela tem realmente essa dívida. Ela é uma dívida que foi assumida por uma fundação privada, para fazer atendimento de saúde em um contexto em que há um subfinanciamento da saúde. Então, a cada mês que o hospital funciona, a gente tem um déficit da ordem de R$ 2 milhões. Se fosse uma empresa privada, já teria quebrado. Então, existe realmente essa dívida, a maior parte com fornecedores, e é um desafio extremamente grande manter a saúde financeira da FAEPU.

E o impacto dessa dívida para os estudantes?

Sobre os estudantes, com a recuperação do Hospital e com ele funcionando, as expectativas dos estudantes estão garantidas. O problema vai aparecer se eu diminuir drasticamente o número de cirurgias, se eu diminuir as internações. Não podemos esquecer que o nosso Hospital de Clínicas é, antes de tudo, um hospital-escola.

Durante este ano, duas ocorrências de assalto foram registradas no campus Santa Mônica. No ano passado, houve uma tentativa de estupro. O senhor mencionou medidas de segurança já realizadas e outras que serão implementadas. O senhor acredita que essas medidas irão contribuir para garantir a segurança do campus?

Eu acredito que irá ajudar sim: o pequeno aumento da segurança terceirizada, as câmeras. Eu gostaria também de ter mais aplicativos. O celular já é uma boa coisa, porque, a qualquer momento, você pode fotografar, gravar e fazer uma série de coisas. Então, em certos momentos, inibe um pouco. Mas eu acho que nós temos também que cuidar um dos outros, precisamos ser mais solidários. Se eu estou saindo do campus e notar que tem alguém em alguma situação de fragilidade, ter um olhar atento para isso e ajudar. Hoje [7 de dezembro] de manhã, tivemos a visita do Conselho Municipal de Combate às Drogas. São pessoas da comunidade de Uberlândia, da sociedade local. Não são políticos, são cidadãos interessados nessa temática. Vieram aqui e disseram que têm recebido por lá muitas denúncias de uso de drogas na universidade. A gente acha que as câmeras vão ajudar também nesse combate. Eu falei: “A universidade não é uma ilha isolada da sociedade. Acontece lá fora, aqui também”. Muitas pessoas acham que estamos em uma redoma protetora que vai nos imunizar de todos os males da sociedade. Infelizmente, a vida não é assim. Disse a eles que temos políticas e que há muita gente preocupada com isso.

Algum arrependimento após ter assumido a reitoria?

Nunca. Arrependimento, não. Preocupações, várias. Mas eu continuo com mesmo entusiasmo do primeiro dia. Sou muito grato a uma equipe talentosa, envolvida, preocupada, que gosta da universidade. Então, sou beneficiário de pessoas que têm sido muito generosas comigo. Não há do que se arrepender. As preocupações são normais porque as coisas são difíceis.

 

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